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Sobram vagas. Falta pessoal.
23/8/2009
- Niterói,
Simone Schettino, O Fluminense, Empregos e Negócios
Alguns serviços simplesmente
estão deixando de ser procurados pelos mais jovens, apesar
da grande importância que representam na economia
Você sabe onde encontrar uma
costureira jovem? E um ajudante de pedreiro que esteja
interessado em seguir a carreira? Algumas profissões podem
estar com os dias contados, caso não seja feita uma grande
reforma nas relações de emprego. Não faltam cursos de
capacitação – a maioria gratuitos –, mas sim mão-de-obra
interessada.
Há mais de uma década,
investimentos maciços, públicos e privados, em qualificação
profissional, têm sido o carro-chefe das políticas de
emprego e geração de renda. Então, a crise agora é outra: os
trabalhos manuais, essenciais na economia, não conseguem
renovar seus quadros. Os trabalhadores estão envelhecendo e
os jovens não se interessam em seguir essas profissões.
"O status menor atribuído a
essas profissões está relacionado às representações que
nossa sociedade tem delas. Porque aos escravos eram
atribuídas as tarefas braçais, o trabalho manual é visto
como escravizante, de menor valor e para o qual não é
necessária uma formação, visão de que muitos jovens
compartilham", explica Fernanda Delvalhas Piccolo, doutora
em Antropologia Social e professora na Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ).
Para a mestre, a máxima de que
"o trabalho dignifica o homem" parece não encontrar mais
ressonância frente aos jovens. "Há uma mudança de valores em
relação ao trabalho, o que muitas pessoas chamam de crise
dos valores", diz.
Foi o que Marcel de Paula Luiz,
diretor da SOS Computadores de Icaraí, constatou na prática.
Ele diz que os jovens faltam às entrevistas e muitas vezes
nem aparecem no primeiro dia de trabalho.
Para ele, o problema está na
formação, que mudou muito nos últimos 15 anos.
"O jovem que hoje está com 18,
20 anos, não teve criação com disciplina. É muito
desinteresse da parte do candidato; chega a ser indiferença.
Tanto que, na minha empresa, quando eu encontro alguém com
talento, prefiro capacitá-lo, desde que encontre nele
disposição para o trabalho", desabafa.
Costureiras – Há 30 anos
no setor de confecções, Rubens Nunes, diretor da empresa de
consultoria Megatech, afirma que o setor não se renova por
falta de interesse na profissão.
"Antigamente, a mãe levava a filha para ser ajudante e
aprender a profissão. Mas a jovem, hoje, prefere ganhar
menos e trabalhar no shopping, com ar-condicionado e
tranquilidade", comenta.
A antropóloga da UFRJ completa
dizendo que há certos jovens que preferem um trabalho mais
estável e ganhando menos. As atividades chamadas dos "eiros"
e "eiras" (pedreiros, costureiras) foram substituídas por
outras em escritórios ou telemarketing, ligadas às novas
tecnologias.
"A remuneração nessas funções,
na maioria das vezes, é inferior à dos trabalhos manuais,
mas dá ao jovem status. Isso não quer dizer,
necessariamente, que eles compartilhem o trabalho como
valor", avalia Fernanda Delvalhas.
Obras – Para o
mestre-de-obras Jeovah Januário Tito, há 20 anos na Prescon
Engenharia e Projetos, "mão-de-obra é um negócio
complicado". Na maioria das empresas, a contratação de novos
pedreiros é feita através de indicações de funcionários "e é
muito difícil trazer um jovem para o canteiro de obras".
O ajudante de pedreiro, de
acordo com Tito, tem piso de R$ 719, e o pedreiro
profissional R$ 1.053, mais vale-transporte e alimentação no
local.
Sentir a vocação é
fundamental
Para Thiago Sanderson,
coordenador operacional do Serviço Nacional de Empregos (Sine)
na Prefeitura de Niterói, o que acontece é resultado de uma
ação de qualificação mal direcionada, sem nenhuma
preocupação com a orientação vocacional e profissional.
Somado a isso, os candidatos não estão preparados para a
seleção, causando desistência em etapas decisivas.
A intenção, hoje, é instruir os
candidatos para o processo seletivo, preparar para as
avaliações, a entrevista, e as dinâmicas de grupo",
completa, e usa o caso do Comperj como exemplo:
"A exposição na mídia criou uma
expectativa de vagas na área de petróleo e gás, mas com o
crescimento da economia nas regiões do entorno, todos os
segmentos de comércio, serviço e indústria serão afetados".
A Câmara dos Dirigentes
Lojistas (CDL) de Niterói, em parceria com a SOS
Computadores, tem um programa chamado S.O.S Oportunidades,
com teste de aptidão, elaboração do currículo e treinamento
para entrevistas.
"O emprego não é mais um valor
como antes; hoje é o dinheiro e o que se pode ter com ele.
Os jovens passam por um momento de falta de perspectivas",
finaliza Fernanda.
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CDL-Niterói conta com banco de oportunidades.
Marcel de Paula ressalta que falta disciplina
aos jovens atualmente, até mesmo para comparecer
ao emprego. |
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